Ulysses, de James Joyce: por que um único dia pode conter o mundo inteiro

Ulysses, de James Joyce, transforma um dia comum em Dublin em uma epopeia moderna. Entre fluxo de consciência, referências clássicas e linguagem radical, o romance redefine o que a literatura pode ser.

Ulysses, de James Joyce: por que um único dia pode conter o mundo inteiro

Poucos livros carregam uma reputação tão intimidadora quanto Ulysses, de James Joyce. Frequentemente citado como “difícil”, “ilegível” ou “excessivamente erudito”, o romance publicado em 1922 é, na verdade, uma das tentativas mais ambiciosas da literatura: representar a mente humana em funcionamento enquanto transforma a vida cotidiana em épico.

A narrativa acompanha um único dia — 16 de junho de 1904 — na cidade de Dublin. Nesse intervalo aparentemente banal, seguimos principalmente Leopold Bloom, um homem comum, agente de anúncios, atravessando a cidade, lidando com pequenos compromissos, pensamentos dispersos, memórias, desejos e inseguranças. Paralelamente, surge Stephen Dedalus, jovem intelectual em crise, já conhecido do leitor de Joyce. O encontro dessas trajetórias ecoa silenciosamente a Odisseia de Homero, na qual Bloom assume o papel de um Ulisses moderno, sem guerras nem monstros, mas cercado por conflitos internos.

A complexidade de Ulysses nasce sobretudo de sua forma. Joyce não se contenta em contar uma história: ele muda radicalmente o estilo de escrita a cada episódio. Um capítulo imita manchetes jornalísticas; outro assume a forma de uma peça teatral alucinatória; há ainda um que percorre toda a história da língua inglesa em poucas páginas. O leitor não encontra um terreno estável — e isso é intencional. A leitura exige reaprendizado constante, como se cada parte fosse um livro diferente.

Outro ponto central é o fluxo de consciência. Em vez de narrar ações de fora, Joyce nos coloca dentro da cabeça dos personagens. Pensamentos surgem por associação, sem aviso, misturando passado e presente, ideias sublimes e trivialidades corporais. Comer, andar, lembrar, desejar e fantasiar têm o mesmo peso narrativo. A mente humana, com toda sua confusão e beleza, torna-se o verdadeiro protagonista.

Essa abordagem levou o livro a ser censurado por obscenidade durante anos. Ulysses foi proibido nos Estados Unidos e no Reino Unido até 1933, quando um julgamento histórico reconheceu seu valor artístico e abriu caminho para maior liberdade literária. Hoje, esse episódio é visto como um marco não apenas na história do romance, mas também na defesa da arte contra a censura moral.

Apesar da fama de hermético, Ulysses não é um livro sobre erudição vazia. Seus temas são profundamente humanos: paternidade, perda, desejo, culpa, pertencimento e solidão. Joyce demonstra que um dia comum, vivido por pessoas comuns, pode conter a mesma densidade simbólica de uma epopeia antiga.

Ler Ulysses não é um exercício de decifração total, mas de entrega parcial. Não é necessário entender tudo — talvez ninguém entenda. O valor do livro está menos na compreensão completa e mais na experiência: a sensação de caminhar por uma cidade e por uma mente ao mesmo tempo, percebendo que, por trás da rotina mais banal, existe um universo inteiro em movimento.