Runv.Club - ou runverse
Prevista para abril de 2026, a nova plataforma criada por Pablo Murad nasce com uma ideia simples e rara: fazer a internet voltar a parecer um lugar vivo.
a rede social que quer devolver alma à internet
Durante anos, a web foi sendo achatada. Tudo ficou mais rápido, mais automatizado, mais eficiente — e, junto disso, também mais impessoal, mais previsível e mais hostil. As grandes plataformas transformaram presença em métrica, conversa em engajamento e identidade em produto. No meio desse ruído, surgiu uma pergunta incômoda: e se a internet pudesse voltar a ser um território de descoberta, autoria e encantamento?
É exatamente dessa pergunta que nasce o runv.club, a nova rede social desenvolvida por Pablo Murad. Não como mais um aplicativo para disputar atenção a qualquer custo, mas como uma resposta radicalmente mais humana: um espaço para presença real, expressão própria, comunidade e experimentação.
O runv.club não nasce tentando imitar o que já existe. Ele nasce olhando para trás para conseguir avançar. Há, no seu DNA, a influência clara da web independente, da cultura pubnix, dos diretórios pessoais, dos espaços em que cada pessoa constrói sua própria casa digital em vez de apenas alugar um perfil dentro de uma plataforma. Isso não é nostalgia vazia; é direção. A IndieWeb resume esse espírito em princípios como “Own your data”, “Make what you need” e até “Have fun!” — três ideias que parecem óbvias, mas que a internet dominante passou anos tentando enterrar.
Essa visão também conversa com uma tradição mais antiga e mais teimosa: a das comunidades pubnix, sistemas sociais e técnicos onde as pessoas não são apenas usuárias, mas habitantes. Um dos exemplos mais conhecidos é o SDF, que existe desde 1987 e se define como uma “community platform for inspiring, facilitating and implementing new ideas”. Não é coincidência que o runv.club pareça andar nessa mesma direção: menos shopping center digital, mais cidade habitada.
Pelo que já está implementado no projeto, essa filosofia não fica só no discurso. O runv.club está sendo construído com infraestrutura para Gopher e Gemini, com espaços públicos por usuário, páginas próprias e um índice de cápsulas dos membros — ou seja: presença individual real, não apenas um campo de texto dentro de um feed centralizado. Em vez de reduzir pessoas a posts descartáveis, o projeto aponta para algo melhor: cada membro como autor, cada perfil como território, cada página como rastro de uma mente viva.
E aqui está o detalhe mais bonito: isso não é tecnicismo para nicho. É poesia aplicada à infraestrutura.
Porque o que o runv.club propõe, no fundo, é uma reencantação da rede. Uma internet menos moldada por vício de retenção e mais moldada por curiosidade. Menos pensada para captura e mais para encontro. Menos orientada por algoritmo e mais por afinidade. Menos “viral” e mais memorável.
Há algo profundamente simbólico em lançar uma rede social nova em 2026 e, em vez de prometer escala brutal, prometer sentido. Em vez de vender distração infinita, oferecer lugar. Em vez de pedir performance, convidar à presença. Isso é contraintuitivo. E justamente por isso é forte.
Tim Berners-Lee, ao falar da web, resumiu sua ambição numa frase curta e brutal: “The web is humanity connected by technology.” O problema é que boa parte da internet atual preservou a tecnologia e foi esquecendo a humanidade. O runv.club parece querer inverter essa lógica: colocar a tecnologia de volta no seu papel correto — o de ponte, não o de dono.
Também não é irrelevante que o projeto dialogue com o universo Gemini, onde sites são chamados de capsules e a ideia de publicação volta a ser leve, textual, direta e pessoal. O próprio FAQ do Project Gemini descreve esse espaço como uma alternativa para quem está cansado de rastreamento ubíquo, anúncios agressivos e os excessos da web moderna. É difícil não enxergar afinidade direta entre esse espírito e o que o runv.club está preparando.
Mas seria um erro chamar o runv.club de “retrô”. Retrô é repetir forma antiga sem necessidade nova. O que está acontecendo aqui é outra coisa: resgatar estruturas que ainda fazem sentido e recolocá-las em circulação com propósito contemporâneo. O passado entra como bússola, não como museu.
Por isso, o lançamento do runv.club importa. Não só porque é um novo produto. Não só porque foi desenvolvido por Pablo Murad. Mas porque ele encarna uma tese: a de que ainda existe espaço para uma internet mais autoral, mais íntima, mais estranha, mais livre e mais bonita. Uma internet em que pessoas não sejam matéria-prima para plataforma, mas centro da experiência.
Se der certo — e há bons sinais de que pode dar — o runv.club não será apenas mais uma rede social. Será um portal para uma sensibilidade que muita gente julgava perdida. Um lembrete de que a rede não precisa ser só vício, ruído e vitrine. Ela ainda pode ser abrigo, laboratório, clube, arquivo, praça e fogueira.
Em abril de 2026, quando o runv.club abrir as portas, talvez o que esteja nascendo não seja apenas uma plataforma.
Talvez seja um pequeno retorno da magia.