Eu amo vibe coding — e não estou nem um pouco preocupado em ser substituído

Não tenho medo do vibe coding. Quanto mais gente puder programar, melhor: isso multiplica ideias, acelera experimentos e cria oportunidades para quem sabe transformar caos, curiosidade e prompts em software útil.

Eu amo vibe coding — e não estou nem um pouco preocupado em ser substituído

Existe um medo meio espalhado no ar, especialmente entre programadores: “agora que IA escreve código, acabou; vão tomar meu lugar”.

Eu penso o contrário.

Eu amo vibe coding. E não porque eu ache bonito apertar um botão e chamar qualquer coisa que saiu dali de software. Eu amo porque isso escancarou uma verdade que muita gente fingia não ver: programar nunca foi só digitar sintaxe.

Quando a barreira de entrada cai, isso não mata a programação. Isso multiplica as possibilidades.

E, sinceramente? Ótimo.

O que eu gosto no vibe coding

O melhor do vibe coding não é “substituir programadores”. É colocar mais gente no jogo.

Gente com ideia, com problema real, com necessidade concreta, com curiosidade. Gente que antes travava no primeiro for, no erro de ambiente, na documentação mal escrita, no tutorial desatualizado, no framework que já mudou três vezes antes do café esfriar.

Se essas pessoas agora conseguem construir protótipos, automatizar tarefas, testar produtos e transformar intuição em algo executável, isso é excelente.

Porque ideia boa não nasce só em faculdade de computação, nem só em empresa de tecnologia, nem só na cabeça de quem sabe decorar API.

Ideia boa pode nascer em qualquer lugar.

E o vibe coding funciona como uma espécie de incubadora caótica dessas ideias. Uma chocadeira mesmo. Milhões de cérebros tentando construir alguma coisa útil, divertida, estranha, brilhante, desnecessária ou genial.

No meio desse caos? Sai coisa ruim, claro.

Mas também sai coisa muito boa.

“Mas e os programadores?”

Os programadores continuam exatamente onde sempre estiveram: no lugar mais importante.

Porque escrever código é só uma parte minúscula do trabalho real.

O trabalho real é:

  • entender problema de verdade;
  • separar ideia boa de ideia bonitinha;
  • tomar decisão técnica com contexto;
  • prever consequência;
  • revisar porcaria antes que ela vire dívida eterna;
  • saber quando a IA acertou por sorte e quando ela está inventando moda;
  • transformar protótipo em sistema que não explode na primeira segunda-feira de manhã.

Ou seja: se o seu valor era apenas ser uma máquina humana de boilerplate, aí sim, você tem um problema.

Mas isso não é culpa do vibe coding. Isso só revelou que o seu diferencial era fraco.

Duro? Sim. Falso? Não.

O que muda de verdade

O que está mudando não é a necessidade de programadores. O que está mudando é o tipo de vantagem competitiva.

Antes, muita gente se destacava porque conseguia produzir mais código por hora.

Agora isso vale menos.

O que vale mais é:

  • clareza de pensamento;
  • repertório técnico;
  • noção de produto;
  • arquitetura;
  • leitura crítica;
  • capacidade de testar, validar e refinar;
  • bom gosto para decidir o que deve existir e o que jamais deveria ter sido criado.

Em outras palavras: o teclado perdeu um pouco de protagonismo. O cérebro ganhou mais.

Mais gente programando é uma notícia boa

Eu realmente não compro essa visão elitista de que programação perde valor quando fica acessível.

Pelo contrário: ela ganha alcance.

Quando mais pessoas conseguem construir, o volume de experimentação sobe de forma absurda. Surgem ferramentas nichadas, microprodutos, automações específicas, soluções para dores que uma software house gigante nunca enxergaria.

Isso é maravilhoso.

É como abrir as portas de uma oficina e deixar entrar uma multidão de inventores malucos. Nem todo mundo vai construir um foguete. A maioria vai montar um carrinho torto com fita isolante.

Mas alguns desses carrinhos tortos viram negócio.

Outros viram produto.

Outros viram biblioteca.

E vários viram problema novo — que, adivinha só, programadores bons vão saber resolver melhor do que ninguém.

Oportunidade para quem já é avançado

Aqui está a parte que muita gente experiente ainda não entendeu: vibe coding é ainda melhor para programadores avançados.

Porque quem já tem base técnica não usa IA só para “fazer código”. Usa para:

  • explorar alternativas mais rápido;
  • testar abordagens em paralelo;
  • gerar rascunhos sem apego;
  • automatizar partes chatas;
  • encurtar o caminho entre hipótese e experimento;
  • aumentar drasticamente a velocidade de iteração.

Isso muda tudo.

Um programador forte com boas ferramentas de IA vira uma fábrica de protótipos, testes e versões. Consegue pensar mais longe porque perde menos tempo no atrito mecânico.

E, mais importante: consegue aproveitar o fluxo gigantesco de ideias que vem de fora.

Se milhões de pessoas começam a tentar criar coisas, isso não reduz o espaço do programador experiente. Isso aumenta.

Mais ideias no mundo significam mais sistemas para lapidar, mais projetos para estruturar, mais produtos para escalar, mais integrações para arrumar, mais bugs esquisitos para caçar, mais arquitetura para consertar.

Quem enxerga isso cedo não vê ameaça. Vê maré.

Nem tudo são flores, obviamente

Agora vamos cortar o romantismo por um minuto: vibe coding também produz muito lixo.

Muito.

Código frágil, dependência maluca, arquitetura improvisada, segurança duvidosa, manutenção sofrível e um festival de gambiarra que faria qualquer debugger pedir demissão.

Só que isso também não é novidade. O mundo já estava cheio de software ruim antes da IA.

A diferença é que agora a produção de software ruim ficou mais rápida.

E sabe o lado bom disso? A produção de software útil também.

O ponto não é fingir que todo código gerado por IA é maravilhoso. Não é. Seria ingenuidade.

O ponto é entender que ferramentas novas amplificam tanto competência quanto incompetência.

Na mão errada, aceleram desastre.

Na mão certa, aceleram criação.

Eu não tenho medo de perder meu lugar

Eu não estou preocupado porque meu lugar não está preso ao ato mecânico de escrever linha por linha.

Meu lugar está em pensar sistema, fazer escolhas, combinar ferramentas, avaliar trade-offs, cortar excessos, estruturar soluções e transformar bagunça em algo utilizável.

Se a IA me poupa parte da digitação, ótimo.

Se ela coloca milhões de pessoas para experimentar software, melhor ainda.

Porque isso expande o campo.

Expande demanda.

Expande possibilidades.

Expande o número de problemas interessantes para resolver.

E é justamente aí que programadores bons brilham.

No fim, é isso

Eu gosto de vibe coding porque ele é bagunçado, divertido, rápido e democratizante.

Ele tira a programação de um pedestal meio sagrado e devolve ela para onde sempre deveria estar: nas mãos de quem quer construir.

Isso não diminui o programador.

Isso separa o programador que só apertava parafuso do programador que realmente sabe construir máquina.

Então não, eu não vejo o vibe coding como o começo do fim.

Vejo como o começo de uma era com muito mais gente tentando criar.

E, honestamente, eu quero mais é ver essa bagunça crescer.

Porque do meio dela saem ideias novas.

E de ideias novas saem coisas que valem a pena.